42 anos, 15330 dias, semanas pra caralho, que ás vezes tenho medo de olhar na janela do tempo, indo de encontro a tudo que já passei. A cada 13 de agosto, tamanha pressão do zodíaco, das superstições, da sáude e dos conflitos que dispõem a vida, terminei por desenvolver uma política de auto-monitoramento sobre a data, desviando-a das formalidades, mudando eventos, desfazendo agenda, e em alguns anos, recluso. Para Pascal (2008, p. 51), a única causa da infelicidade humana "é que ele não sabe como ficar quieto em seu quarto", ou seja, quando anda de um lado para o outro, não pensa.
Porém, por mais paradoxal que isso possa parecer, o fato é que, individualmente, nós resistimos; individualmente, eu caio. Esse ano estava precisando moldar minhas ações e celebrar essa data. Fazendo as devidas deferências ao meu candidato JP, iniciei os trabalhos às 13:33. Um golinho de leve, nas raízes, Afogados City, cada vez mais representativo ao universo pós-moderno, onde os indivíduos formam a sociedade ao rigor de suas próprias ações, marquei presença, passei incólume e consegui chegar na entrada da noite ao Bugaloo.
Já me dava por satisfeito, tudo transcorria num ritmo de ordem, equilíbrio que sentia falta. Reuni a melhor safra de amigos, num sincopado sistema de rodízio em que Rita, Mércia, Ana e João demarcaram espaço, num ritmo etílico ao melhor estilo Noel Rosa e Vinícius de Moraes.
Logo em seguida chegam Demétrio e Lívia, Viviane e Valmir, Karen, todos muito bem ensaiados, varrendo copos e pratos, impingindo marcas a uma data que me trazia a intimidade necessária.
Lá pras tantas, eis que chegam células dessa juventude diferenciada Léo, Paula e um casal de amigos, dando o toque de poesia e garra, abafados na geração 60 que representamos, para, juntamente com Sérgio Miguel, Júlia, Fernando e Amauri, edificarem a união que as diferenças portabilizam.
Em cada par, uma história, e a cada gesto, criava vidas e comandos numa atitude reificadora intrínseca ao meu exercício de vida. De todos aproveitei um pouco. Cornelius Castoriadis certa vez apontara que o erro das sociedades contemporâneas estava na falta de questionamentos, por ali tivemos em sobras, e que outros tantos venham, para que possamos criar um esteio na eternidade, dada a brevidade da vida.
Já se foram 42 anos e vive o meu conjunto de hábitos e disposições, dessa forma, não poderia deixar que nossas marcas não tivessem testamentos, agradeço a todos, afinal, contamos os dias e os dias contam.
domingo, 15 de agosto de 2010
domingo, 13 de junho de 2010
Merica não quis ser Barnabé
De uns tempos pra cá, fazendo as devidas deferências ao senhor tempo, minhas idas e vindas ao mercado público de afogados foram reduzidas. E olha que em muito devo aquele locus na formação do meu cabedal de malícia de vida. Por ali vi de tudo.
Entretanto, foi numa leitura sobre uma coletânea de crônicas de uma jornalista gáucha, Eliane Brum, A vida que ninguém vê, que vi aquecida minha saudosa nostalgia de minhas raízes. Pois, Eliane nos revela tipos urbanos do sul do país que só interagindo para aproveitar de seus sabores.
Conhecesse essa gáucha como Inácio conhece, uma vez passando por aqui, levaria de imediato pra tomar uma no mercado, em lá chegando, depois de algumas cervejas, apresentaria o espaço Merica de ser.
O nome em si é demonstrativo da fauna que pertence, uma vez que, de tão feio, assemelha-se ao célebre volante do Leão da Praça da Bandeira.
Das 4 da madruga, recepcionando todo tipo de gente, até a meia noite, circulava com latas de água amenizando a imundície dos banheiros públicos por ali.
" Merica, Corno. De bate pronto, responde: corno de tua mãe". Até aí tudo corre na mais bela harmonia, entre uma ou outra lapada de cana, garantida pelas moedas depositadas numa caixa de papelão pregada na parede.
Tirá-lo do sério só testemunhei, quando um gaiato apontava: "Hum rum, Dr. Roberto Magalhães vai assinar sua carteira. De imediato, vomitava: vá vc e Roberto Magalhães tomar naquele lugar. Diga -se de passagem, que tal verbete era dominante no seu cotidiano linguístico".
O homem virava uma fera, e entra prefeito e sai prefeito, a labuta era a mesma. Uma vez que, para Merica, servidor público era sinônimo de desonra e, para servir ao público não necessariamente se precisaria do jargão de Barnabé.
Segundo o Houaiss, Barnabé seria um funcionário público de modéstia importância. Para Mérica, homem simples, probo, pobre e incauto, Barnabé ou funcionário público, era tudo a mesma coisa e quisesse lhe fazer raiva o homenageasse com tal cerimônia.
Da porta do banheiro,onde dedicou a maior parte de sua vida em prol da comunidade do mercado, a distância era de cerca de 14 metros para o INSS, o acesso a autarquia alcançou na utilização das torneiras do órgão em tempos de racionamento de água no bairro.
Morreu enfartado, dentro do recinto, sem direito a pecúnia pública, mas eivado de ética, sendo esta o instituto de sua sobrevivência e de bem estar humano.
domingo, 2 de maio de 2010
A alegria pede passagem, o céu agradece
Minha cabeça já andava a mil quando da minha última consulta no Real Cor, pois os fatos passavam a ter poder de império. Como se não bastasse, depois de mais um dia de tensões no trabalho, minha mãe telefona: "Mataram Carlinhos da São Carlos, agora, no centro da cidade".
Travei, de imediato.
"Como? Não é possível".
Desliguei o celular e continuei dirigindo feito uma pica maloqueira. E por mais que não estivesse mais no mesmo lugar, a cada passo que dava, nada, mais nada, vinha em minha cabeça que justificasse tal infortúnio.
Voltei a ligar pra minha mãe, que, de bate pronto informou o óbvio : " bala perdida.
Foi meu filho. Tava feliz e tinha ido buscar o dinheiro que a prefeitura dava todo ano pra escola".
Muito embora venha numa luta incessante para encontrar respostas para a morte, em seu tempo e espaço,
não me faltam respostas quando ela vem de encontro a quem sela a paz. Outro motivo não seria que o protagonizado pelo acaso desse mundo incerto e inseguro.
Carlinhos se confundia com a alegria. Um ato seu era o recuo para um manifesto de raiva, quiçá um gesto de violência. Botava apelido em todo mundo:"chupão, Cara de Cú".
Nesse diapasão trilhava por frango, sapatão, ladrão, sambista, políticos, comerciantes, desocupados, pinguços, era o mago botar a cara na rua e o rasgo de sorrisos nas faces urbanas daqueles macunaímas desabrocharem.
De tão intenso não tinha a menor preocupação ou dimensão do seu valor na comunidade, sobretudo no mundo do samba. Digo mais, no universo da inclusão social sustentável.
Seu enterro, num domingo de chuva, terminou por registrar uma avassaladora massa humana, vinda de todos os cantos para se despedir do seu menestrel.
De todos os lados aparereceram voluntários: 10 ônibus, dezenas de coroas de flores, o Atlético Clube de Amadores tomado no ritmo do samba, em perfeita simbiose com seu maior desejo: "não chorem quando eu morrer, apenas cantem".
Apaixonado pelo Grêmio Recretivo Unidos de São Carlos, antes, Escola de Samba Caixão de Lixo, Carlinhos fazia de uma festa no barracão, uma ação de doação de alimentos, gerava empregos para a informalidade, resgatava a cidadania e integrava seu povo num balé de sentimentos em prol do fundamento da vida.
Nas rodas de pagode, nos campinhos de pelada, no Coque, Vila São Miguel, Bomba do Hemetério, Bairro de São José, onde quer que aquela cara enrugada circulasse,com ele pedia passagem o samba, o Clube Náutico Capibaribe e o acúmulo de amizades, hoje, em condição de orfandade pela morte do seu diplomata.As últimas notícias advindas do além, dão respeito de que acaba de se iniciar uma roda de samba regada a cervejas geladas, num encontro de bambas nunca antes revelados. Carlinhos acaba de chegar com um pandeiro nas mãos, de calça branca e é ovacionado pela ala de conselheiro Rosa e Silva, sendo saudado por Eládio de Barros Carvalho,Carlinhos latinha de doce, Cartola e Ziquirina, pois puxou um N-A-U-T-I-C-O.
De fato, por lá, a alegria pede passagem. O céu agradece.
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sexta-feira, 9 de abril de 2010
Um cachorro chamado diploma
Seu Josias ou Coronel Josias, reza a lenda que do alpendre da Casa Grande, de frente à praça,em Simões, no Piauí, estrategicamente, aquele cidadão de estatura baixa, fala mansa, marcou história nos anais da política local, construindo um legado, que em muito se distanciava dos modelos coronelistas de então. Sensível ao cumpadrio, promovia uma alteridade no exercício do poder; para a prole, um visionário, educação era o norte.
E nesse rumo, gostava de sentar na calçada e acompanhar a partida dos filhos para Petrolina, Salvador, imersos na boléia dos Pau de Arara, andando léguas e léguas em estradas viscinais, inóspitas, onde tinha-se tempo para escrever um livro numa olivetti, pegar uma gripe e chegar curado.
E lá iam Avani, Joaquim, Abércio e Pedro de Josias. Os 3 primeiros bem encaminhados. Pedro, o primeiro na idade, e derradeiro nos estudos, não tinha a menor vontade de sair do mato. Portanto, iria, mas o levaria em seus rastros.
Chegando na Terra de Seu Quelé (Coronel Clementino Coelho, Pai dos Osvaldo, Paulo, Nilo e avô de FBC), coube a Avani encontrar uma escola que absorvesse a demanda de um aluno de 17 anos para alfabetizá-lo, isso em 1950, pasmem. No entanto, lá ia Pedro.
No primeiro dia, seguindo a trilha da roça pra escola, um assovio fifiuuuuuuuuuuu.
De bate pronto, Pedro respondeu: "mato um".
Avani tentando apaziguar, foi logo avisando: "é um viado Pedro, deixa pra lá".
No que ele retrucou."No dia que num conhecer um viado do mato, era um pederasta mesmo, atiro na boca dele e enfio a espingarda no rabo".
Pro primeiro dia, deu pro gasto. Na escola, a professora disse: " vamos estudar adjetivo".
Eis que Pedro questionou: "o que é adjetivo ? Vem de onde ? E porque qualidade se nem conheço ? e quem viu ou prova ? E essa foi a tônica, de um semestre digno da melhor análise paulofreiriana.
O resultado final, apontou para o encerramento de um ciclo.A professora tratou de chamar os irmãos e disse: "tem condição não".
Na saída da escola, buscando-se o resgate da auto-estima. "Pedro vamos tomar sorvete". Lá chegando, o bicho fumaçando, não conhecia gelo, trincou nos dentes, cuspindo-o longe.
Ganhava o diploma. A volta pra casa foi adiantada e graduado em seis meses, semelhante aos profissionais de pós-graduação dos idos atuais. O homem tava na frente dos tempos.
No dia do retorno, apaixonou-se por um cachorro vira lata, pé duro, jogou em cima do caminhão e trouxe a reboque , descendo a serra com o bicho no colo, depois de ter cagado e urinado o trajeto todinho.
Seu Josias, todo prosa, cerimonioso, não se fez de rogado:
" Pedro, sabia que não ia me decepcionar; os outros meninos, gastam mais e demoram 4 anos pra se formar. Pedro demorou pra ir, porém em 6 meses, volta formado e ainda trás um diploma ".
Depois dos agraciamentos paternos, o diploma teve vida curta e não chegou a ser registrado, morto pela condição de arquivo.
E nesse rumo, gostava de sentar na calçada e acompanhar a partida dos filhos para Petrolina, Salvador, imersos na boléia dos Pau de Arara, andando léguas e léguas em estradas viscinais, inóspitas, onde tinha-se tempo para escrever um livro numa olivetti, pegar uma gripe e chegar curado.
E lá iam Avani, Joaquim, Abércio e Pedro de Josias. Os 3 primeiros bem encaminhados. Pedro, o primeiro na idade, e derradeiro nos estudos, não tinha a menor vontade de sair do mato. Portanto, iria, mas o levaria em seus rastros.
Chegando na Terra de Seu Quelé (Coronel Clementino Coelho, Pai dos Osvaldo, Paulo, Nilo e avô de FBC), coube a Avani encontrar uma escola que absorvesse a demanda de um aluno de 17 anos para alfabetizá-lo, isso em 1950, pasmem. No entanto, lá ia Pedro.
No primeiro dia, seguindo a trilha da roça pra escola, um assovio fifiuuuuuuuuuuu.
De bate pronto, Pedro respondeu: "mato um".
Avani tentando apaziguar, foi logo avisando: "é um viado Pedro, deixa pra lá".
No que ele retrucou."No dia que num conhecer um viado do mato, era um pederasta mesmo, atiro na boca dele e enfio a espingarda no rabo".
Pro primeiro dia, deu pro gasto. Na escola, a professora disse: " vamos estudar adjetivo".
Eis que Pedro questionou: "o que é adjetivo ? Vem de onde ? E porque qualidade se nem conheço ? e quem viu ou prova ? E essa foi a tônica, de um semestre digno da melhor análise paulofreiriana.
O resultado final, apontou para o encerramento de um ciclo.A professora tratou de chamar os irmãos e disse: "tem condição não".
Na saída da escola, buscando-se o resgate da auto-estima. "Pedro vamos tomar sorvete". Lá chegando, o bicho fumaçando, não conhecia gelo, trincou nos dentes, cuspindo-o longe.
Ganhava o diploma. A volta pra casa foi adiantada e graduado em seis meses, semelhante aos profissionais de pós-graduação dos idos atuais. O homem tava na frente dos tempos.
No dia do retorno, apaixonou-se por um cachorro vira lata, pé duro, jogou em cima do caminhão e trouxe a reboque , descendo a serra com o bicho no colo, depois de ter cagado e urinado o trajeto todinho.
Seu Josias, todo prosa, cerimonioso, não se fez de rogado:
" Pedro, sabia que não ia me decepcionar; os outros meninos, gastam mais e demoram 4 anos pra se formar. Pedro demorou pra ir, porém em 6 meses, volta formado e ainda trás um diploma ".
Depois dos agraciamentos paternos, o diploma teve vida curta e não chegou a ser registrado, morto pela condição de arquivo.
domingo, 28 de março de 2010
Na estrada da vida, o mote é ser feliz
Como todos ou tudo que pensa, e, como diria o poeta, tenho fases, fases como a lua, fases de ser sozinho, fases de ser só sua. A "sua" da vez é indubitavelmente a felicidade. Nos idos atuais venho transitando entre o Estuário, de Samarone, o Caótico de Inácio, o Blog de Nassif, e a pós-modernidade de Bauman, o que sai disso tudo, às vezes, faz com que não sente perto da janela do meu apartamento. Muito embora, tenha tela.Mas, eis que vem a porra dos Nardoni resgatar meus monstrinhos. De positivo, vem as teses de Pascal, recomendando um recolhimento ao quarto, e fomento a arte de pensar, antes de agir. Tenho tido lucros, mas não fujo dos conflitos urbanos,trabalhistas, ideológicos e futebolisticos nem com a porra, uma vez que tem um negócio dentro de mim, que nem catimbozeiro, espírita ou intelectual do cefish da UFPE conseguem definir. Fazer o que? Bola pra frente. O mote é esse. E nesse diapasão, sigo com umas cervejinhas, peladas, cinemas, debates, tuiteres e as misérias da felicidade, convicto de que é na busca pela alegria que faz as dores valerem a pena.
Quando se é feliz
."Pai, eu posso". Não. Por que não? E aí, tome discussão Socrática, banqueteando o debate. " Mãe, fui segundo na eleição pra representante ". " Mas, nem pude fazer campanha, estive doente, faltei ". Por mais incertos e inseguros com a liquidez da vida, é nessas horas que encontramos a felicidade,ilustrada nesses resultados. No desafio da arte da vida a luta pelo alcance da felicidade cada vez mais nos põe de frente ao horizonte. Como se cada passo que damos, obstáculos serão nossos guias. Nesse sentido, é fato inconteste a plenitude de minha felicidade em poder acompanhar o crescimento de minha prole.Por mais que não tenhamos a concretude do ideário do "Super-Homem"protagonizado por Niestchze, capazes de nos potencializar através de uma auto-afirmação que nos leve a um controle imaculado sobre nós mesmos, em muito nos satisfaz quando passamos a testemunhar a insurgência de um genuíno ser dotado de retidão, sensibilidade, afeto, criticidade e apelo democrático. Vinícius vem numa crescente, olhando pros lados, pra dentro, pra frente, adaptado a inexorável condição de ser feliz, agindo. Na escola, em casa, entre os amigos, na formação de uma leitura do mundo. Anula o que não compreende, concilia em prol do todo, questiona regras, reconhece o zelo dos pares, e é todo prosa no arranjo da vida. A nós cabe impedir que nossas fraquezas e indisposições do passado, cerceiem o direito de planejar um novo início, passando incólume no processo de formação, podendo assim, completar e expandir o nosso projeto de felicidade.Quando se é feliz, tendemos a deixar marcas, e as nossas se confundem com o sucedâneo de nossa semente filial, onde permitir a edificação de suas obras de arte será o selo de nossas conquistas. Vida longa Vinícius. 11 anos. Dia 02 de abril nos aguarda.
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